/

Criar um filho na Alemanha

Eis mais um artigo, na série de artigos de pessoas convidadas por nós. O artigo de hoje é da autoria da Ligia Santos Rodrigues, sobre a experiência de criar um filho num país que não é o seu. Obrigado Ligia pela tua participação neste projecto.

A Família Verso pediu-me para escrever àcerca da experiência de estarmos a criar um filho num país que não é o nosso – Alemanha – e em que toda a nossa família está a cerca de 3000 km de distância.

Baby Blues

Baby Blues

Quando planeámos o nosso filho e por motivos que dariam todo um outro artigo, “optámos” por esperar pelos 3 anos antes dele ir para o infantário, uma vez que aqui onde vivemos os infantários estatais passaram a ser gratuitos desde 2009.

Ora e como ocupar uma criança durante pelo menos 3 anos? Já leram a banda desenhada Baby Blues(*)? É tudo aquilo e mais qualquer coisa. E tem-se duas opções : ou fica-se mesmo em casa – infelizmente conhecemos alguns casos – ou integra-se a criança na sua sociedade o mais cedo possível.

Na cidade onde estamos há toda uma oferta de actividades, pagas, entenda-se, para as ocupar.

Há quem comece pelo Baby-yoga, nós começámos pelos grupos PEKIP (Prager-Eltern-Kind-Programm), um nome estranho para uma metodologia que na prática se traduz em um grupo de pais e respectivas crianças e uma educadora com formação na dita metodologia pedagógica em que se explora e promove desenvolvimento emocional, físico, psicológico e social de crianças no seu primeiro ano de vida. Uma descrição talvez um pouco redutora e sendo um programa típico de países de língua Alemã, não existe muita informação on-line em Português, mas há alguma em Inglês –  http://www.pekip.de/formation.html.

Quanto a actividades organizadas após o primeiro ano a oferta é bastante alargada: o Spielgruppe (em continuidade do PEKIP), o Musikgarten (uma hora a explorar os talentos musicais …. ou barulhentos!), Artes (ou rabiscos), Kinderturnen (ginástica) e é claro, não há dia em que os vários parques não estejam cheios, faça chuva ou faça sol.

Como é natural, todas estas actividades são em Alemão; 90% do ambiente que rodeia o nosso filho é em Alemão e mesmo obedecendo à grande máxima de falar com ele sempre em Português, nestas condições  é muito difícil esperar que a nossa expectativa de receber respostas em Português seja cumprida. No caso do nosso filho, percebe perfeitamente Português e Alemão mas, de acordo com a pediatra, não sabe ainda em que língua responder mas uma coisa sabe dizer: um valente e sentido Nein !

O nosso filho desde os 12 meses que frequenta o Spielgruppe, pratica ginástica e irá começar com música uma vez por semana. No Spielgruppe já se incluem actividades de pintura e descoberta de materiais e aprenderam a almoçar todos juntos; a ginástica é praticada num ginásio de uma escola primária, tudo actividades executadas com um dos pais. Portanto o pai e/ou a mãe é chauffer, é professor, é enfermeiro, é companheiro de brincadeira e em cima disto tudo ainda tem de fazer exercício físico !

Temos a felicidade de viver numa cidade bastante dirigida para a Família, pelo que para além de actividades pagas, há toda uma rede de lugares em que se pode levar uma criança para conviver com outras de forma quase gratuita apenas com uma contribuição simbólica. Refiro-me por exemplo aos chamados Familiencafés, explorados por sociedades de bairro ou por instituições que também organizam actividades pagas, em que as crianças têm uma sala onde podem brincar, onde existe uma ou duas educadoras e apenas se paga um preço bastante simbólico pelo café ou bolo que se consome. Este tipo de espaço tem duas desvantagens : para bebés e crianças pequenas é perfeito mas para pequenos exploradores de 2 anos já é demasiado “pequeno” já que nesta idade já gostam de mostrar quem é que manda e sem querer acabam por magoar os mais pequenitos; a outra desvantagem é que apesar de haver sempre um ou outro que já seja da casa, as crianças nunca são as mesmas todas as semanas pelo que acabam por não criar laços entre si – e engane-se quem ache que são demasiado pequenos para isso!

No do nosso bairro, no Familiencafé mantido pelo Hospital onde nasceu, ainda temos a oportunidade de ter um serviço gratuito de babysitter para necessidades pontuais (mas nada de ir para as compras e deixar lá a criança, sim? ) e inclui a venda de artigos em 2ª mão para criança a preços muito simbólicos também, artigos esses doados por pais da vizinhança. Também a maioria dos brinquedos e livros foram doados pela associação de moradores ou até mesmo por quem frequenta, incluindo o nosso filho que já deu parte da sua roupinha e brinquedos. Não seria um bom conceito a importar?

E os parques com baloiços, escorregas e cavalinhos, ainda à “antiga” com areia para se sujarem e caírem ! A ASAE teria muito trabalho por aqui…. ou melhor não teria porque para além dos espaços infantis serem limpos todos os dias, há também culturalmente um respeito por esses mesmos espaços não se vendo por exemplo jovens e menos jovens a fumar ou fazer lixo e os cães têm o seu parque (mas também não há cães abandonados à solta na rua….)

Assim que o tempo aquecer mais, temos água nos parques para chapinhar, fazer lutas de areia lamacenta e atirar água uns aos outros. E como o tempo corre, daqui a nada temos novamente a neve e os parque passam a ser montanhas frias que insistem em enterrar as pequenas pernas dos exploradores.

Se há uma coisa que aprendemos por aqui é que todos os dias é um bom dia para um escorrega. Não interessa se faz vento, sol, chuva, muito frio ou calor, os parque estão sempre cheios de crianças. Já brincámos com 35ºC mas já fizemos bonecos de neve com -15ºC, já fizemos lutas de água e chapinhámos nas poças enquanto chovia. Mesmo nos infantários as crianças vão para o pátio todos os dias, independentemente do tempo, galochas e calças impermeáveis são equipamento obrigatório.

Portanto as crianças mesmo assim começam desde muito cedo com uma vida social muito activa e valha-nos o planeamento urbano que permite andar com o carrinho para todo o lado, já chegámos a fazer 15km num só dia para atender aos seus compromissos sociais …

Ter um filho fora do país, sem família por perto, revela-se ser um autêntico trabalho a 24 horas pelo menos nestes 3 primeiros anos, cheio de interrupções (até para escrever!) e há dias que achamos que as amas caríssimas mesmo assim são mal remuneradas, há dias que o Pai ainda “não entrou em casa” e a Mãe já está a “passar a bola” !

Mas ter a oportunidade de acompanhar de tão perto os seus primeiros anos … priceless!

(*) se não conhecem e têm filhos pequenos ou pensam vir a ter, esta banda desenhada devria fazer parte da bibliografia obrigatória dos futuros pais: http://www.babyblues.com/ ou ainda a página oficial no Facebook http://www.facebook.com/BabyBlues.

Ligia Santos Rodrigues,
licenciada em matemática transformada em gestora de projectos das interwebs – “eu não sou designer”;
desde 2009 a fazer malabarismo entre trocar fraldas, geocaching e tecnologia.
http://www.flickr.com/photos/farruska/

Gostou deste artigo?

Subscreva o nosso Feed RSS, siga-nos no Twitter ou simplesmente recomende-nos aos seus amigos e colegas!

Posts relacionados:

  • http://www.facebook.com/hugoaafernandes Hugo Fernandes

    Uma das coisas que me leva a querer sair de Portugal é exactamente esta: o respeito que há pela cidadania e principalmente pelas crianças.

    Muitas vozes podem-se insurgir e perguntar: “Então mas se gostam do que se faz lá fora porque não o fazem aqui? Vão fugir é?”

    Pois, isto é muito bonito, mas como ensinar ao “jovens” que não deviam estar a fumar charros num parque infantil? Como ensinar ao dono do cãozinho que não se deve deixar o cagalhão entre um escorrega e um baloiço? Não se ensina, não é?

    A diferença é que em muitos países, como o caso que escreve, protegem o cidadão. E para mudarmos isso cá… digamos que a barra de progresso ainda está assim: ||||________________________________________|

  • http://twitter.com/farruska farruska

    Hugo, o respeito pela cidadania tem de partir de cada um de nós mas temos de caminhar no mesmo sentido; nada vai mudar se, por exemplo, eu atravesso a passadeira com sinal vermelho porque o da frente também o fez e eu nem parei para pensar que podem estar crianças pequenas a ver e a aprender algo errado e potencialmente perigoso.
    Diz-se que as mentalidades não se mudam mas educam-se e de certo não foi sempre assim neste e noutros países nem tão pouco em Portugal; não há-de ser na nossa geração nem na dos nossos filhos que determinadas formas de agir vão mudar, mas temos que começar por algum lado não é?
    Nenhuma sociedada é perfeita e é claro já apanhámos com alguns episódios menos felizes mas acredito que podemos fazer a nossa pequena parte ao ensinar aos nossos filhos e netos valores correctos de se viver em sociedade, o respeito pelo ambiente e acima de tudo o “olhar para além do próprio umbigo” e agir na rua da mesma forma como se age dentro das 4 paredes da nossa casa. Se vai funcionar ? Ninguém sabe, mas em algum lado tem que se começar.

  • http://www.facebook.com/hugoaafernandes Hugo Fernandes

    Concordo plenamente Lígia.

    Creio que cada um de nós pode fazer o seu papel de uma forma consciente. E é isso mesmo que devemos fazer, ou pelo menos tentar. É isso que me guia todos os dias na relação que tenho com a minha filha.

    A minha “frustação” é mais no sentido de nos sentirmos completamente desprotegidos. Nos casos que referi no meu comentário, que quem me dirijo? Pois, por estes lados não muitas soluções. E nem tudo está dependentes de nós próprios directamente. E infelizmente…

  • http://twitter.com/farruska farruska

    no caso dos parques infantis públicos este artigo é muito interessante: http://www.deco.proteste.pt/parques-infantis/regras-de-seguranca-para-parques-infantis-s380821.htm
    dele fiquei a saber que é obrigatória a “identificação e número de telefone da entidade fiscalizadora;”, seria esse número que ligaria se o parque não esteja em condições de utilização (pelo cão, charro, sujidade, etc)

    embora a lei seja confusa, existem entidades com responsabilidade e cabe-nos a nós, cidadãos como pais, avós, irmãos, exigir que essa responsabilidade seja assumida.

    O grande problema é sabermos à partida que este tipo de reclamação é “arquivada”

  • http://twitter.com/farruska farruska

    Hugo, não sei se tem Facebook mas foi ontem lá iniciado um grupo precisamente neste sentido: divulgar e denunciar o estado dos parques infantis  de Portugal.  É um começo :-)

    http://www.facebook.com/parquesinfantisokouko