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O filho apressado

Depois do seu excelente artigo sobre como “Criar um filho na Alemanha“, eis mais um artigo da Ligia Santos Rodrigues, na série de artigos de pessoas convidadas por nós. Uma vez mais, obrigado Ligia pela tua participação neste projecto.

Hold Me!

Hold Me!

O nosso filho sempre foi um apressado : começou a dar trabalho às 8 semanas, tentou nascer às 24, teimou às 32, ameaçou até ao último dia e finalmente às 36 foi obrigado a receber ordem de despejo dado o risco de vida para mãe e bebé. No dia da cesariana – por razões médicas e a única forma de salvar a vida da criança – e após administração da anestesia espinhal, o pai pôde assistir ao nascimento do filho – por norma os pais podem assistir, excepto em emergências, e acompanhá-lo desde os seus primeiros minutos de vida.

Mesmo com toda a sua pressa, não estava ainda preparado para vir conhecer o mundo pelo que as primeiras duas semanas de vida teve direito a estadia na UCIN (unidade de cuidados intensivo neonatais) que no hospital onde nasceu tem a classificação de Nível 1; isto significa que crianças com menos de 500 gramas e/ou menos de 24 semanas são ali recebidas. Foi o caso do lutador da unidade que nasceu com 485g (apenas mais 25 gramas que o mais recente record) e desde há 3 meses já sabia como resmungar com as enfermeiras. Em compensação o nosso era o matulão da turma, com 3 quilos às 36 semanas, mas isso não o impediu de mostrar logo apetência pelas máquinas (não fosse filho do pai e da mãe) e dar uso a um gadget denominado CPAP e mais um emaranhado de tubos, cabos e beeps e blops que o ensinaram a respirar e manter a pressão arterial.

A cesariana teve complicações e a mãe depois de dar um bocado mais de trabalho aos senhores da bata verde, teve de ficar de castigo também nos cuidados até receber uma dose extra de sangue, pelo que só teve autorização para ir conhecer pessoalmente o filho ao 3º dia. Digo pessoalmente porque logo no 1º dia e apesar das complicações para ambos os lados, um dos médicos da UCIN teve o cuidado de vir explicar tudo o que se passava com a criança, quais os próximos passos e …trazer a sua primeira fotografia!

O Pai, coitado, andou os primeiros dias dividido entre o 4º e o 8º piso do hospital e apesar do Alemão não ser o seu forte, nunca se sentiu desapoiado por médicos, enfermeiras e hebammes(*).

Um dia na UCIN é acompanhado de muitos alarmes a disparar por qualquer razão, pais naturalmente assustados e enfermeiras que rapidamente conhecem as manhas daqueles pequenos seres. A manha do nosso era sempre tirar o mesmo cabo e consequentemente obrigar a enfermeira a ir visitá-lo; das duas uma, ou gostava da banda sonora ou sabia qual enfermeira estava de serviço. Por norma são permitidas visitas para além dos pais desde que obviamente não disturbem a calma que mesmo assim reina naquela unidade; já os pais podem ficar lá 24 horas por dia se assim entenderem, embora as enfermeiras também se preocupem e acabem por obrigá-los a ir descansar nem que seja na sala ao lado.

No nosso caso, durante a 1ª semana não se pôde pegar no bebé mas no primeiro dia foi-nos pedido uma t-shirt que a mãe tivesse usado para colocar junto à cama. Mesmo sem podermos “mexer”, as actividades não pararam, desde o teste do pezinho e a 1ª vacina – que mesmo em circunstâncias normais são ambos sempre feitos no hospital – exames médicos e fisioterapia, os bebés ali têm muito que trabalhar.

Ao 8º dia, com alguma estabilidade clínica, pegámos 5 minutos pela primeira vez no nosso filho recorrendo à a chamada posição Canguru que não só promove o fortalecimento do laço físico mãe/pai-filho como promove igualmente uma resposta fisiológica reduzindo o stress, estabilizando a frequência cardíaca, a oxigenação e a temperatura do corpo do bebé.

Foi também a partir desde dia que, sem darmos por isso, passámos a ser avaliados como pais pois a responsabilidade de tratar da criança (medir febre, trocar fralda, vestir, alimentar, dar os medicamentos previamente doseados) passou a ser dos pais e ao nervosismo normal de novos-pais, tínhamos ainda toda uma parafernália de cabos e tubos que não podiam ser desligados mas sempre sob supervisão da enfermeira-chefe que afincadamente tomava notas e auxiliava sempre que necessário.

Nenhum prematuro sai da UCIN sem ter um pediatra externo e quando as enfermeiras fazem essa pergunta, sabe-se que a alta daquela unidade está iminente. Da UCIN passam para a ala de Pediatria onde ficam até à completa recuperação, até atingirem o peso mínimo de 2500g e/ou a idade completa de gestação + 4 semanas, cada caso é um caso.

A título de curiosidade, seja em partos ambulatórios, seja em internamentos neonatos, não existe a cultura da 1ª roupinha como em Portugal : para o bebé não é necessário levar nada, desde fraldas a roupa, sendo usada roupa do hospital devidamente esterilizada e a 1ª roupinha será a do dia da alta. Na UCIN inclusive são usadas roupas doadas por muitos dos pais cujas crianças foram ali assistidas e algumas clínicas aceitam doação de peças em tricot e crochet seguindo rígidas exigências de materiais e técnicas.

O acompanhamento de prematuros começa logo durante a sua estadia no hospital: uma vez por semana é promovido gratuitamente um grupo de apoio aos pais, devidamente acompanhado por um psicólogo e um neurologista onde os pais podem pedir esclarecimentos, falar ou simplesmente ouvir. A frequência desse grupo vai para além do internamento hospitalar, estando aberto em qualquer altura da vida da criança.

Após a alta e em complemento com o acompanhamento pediátrico normal, o SPZ (Centro Social Pediátrico) do hospital faz o acompanhamento periódico até aos 5 anos, com uma equipa constituído por neurologista, fisioterapeuta e um médico da UCIN (sempre que possível um dos que acompanhou desde o nascimento) ; a equipa do SPZ trabalha em sincronia com a Gesundheitsamt (Autoridade para a Saúde) e o/a pediatra, com exames complementares que por norma não são efectuados nas consultas de rotina (por exemplo o nosso primeiro exame foi um electroencefalograma); nestas consultas é avaliado não só o desenvolvimento físico e psíquico da criança, o acompanhamento das sequelas existentes mas também a integração social da criança e pais de forma a levantar a bandeira vermelha o mais cedo possível para qualquer aspecto que possa condicionar a vida futura do prematuro. Todos os relatórios e resultados são partilhados entre as 3 entidades e os pais; não tendo conhecimento prático de acompanhamento de prematuros noutros países apenas podemos afirmar que esta sincronia contribui positivamente para o possível descanso dos pais quando é necessário lidar com algum aspecto que não esteja de acordo com o desenvolvimento previsto, uma vez que todas as partes têm a mesma informação.

O nosso filho nasceu a 22 de Janeiro Janeiro, foi para casa no dia 5 de Fevereiro – excepcionalmente quando ainda faltariam duas semanas para nascer – com ordem de ir para a rua no dia seguinte. E foi assim que, num belíssimo dia de Inverno alemão e ” tapado até ao pescoço” foi conhecer o parque perto de casa …. com 15 graus negativos, :-)

(*) o equivalente a parteira http://www.thelocal.de/lifestyle/20101005-30273.html.

Ligia Santos Rodrigues,
licenciada em matemática transformada em gestora de projectos das interwebs – “eu não sou designer”; desde 2009 a fazer malabarismo entre trocar fraldas, geocaching e tecnologia.
http://www.flickr.com/photos/farruska/

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