O GPS

No seguimento do artigo “Orçamento Familiar” continuamos hoje a série com a artigos de outras pessoas, convidadas por nós, para abordarem temas específicos. O artigo de hoje é da autoria do Luís Carrondo, sobre o GPS. Obrigado Luís pela tua participação neste projecto.

GPS do Toyota Verso

GPS do Toyota Verso

Ouvimos muitas vezes de passagem alguém comentar “o meu carro tem GPS com os mapas das estradas de todo o mundo e até de aquém e além-mar”, o que à primeira vista e no senso comum é correcto, a nível especificamente técnico é um erro. O GPS (Global Positioning System ou Sistema de Posicionamento Global) não é algo que tenhamos em casa, no carro ou no bolso do casaco, o GPS é um sistema de posicionamento geográfico que nos dá as coordenadas tridimensionais (latitude, longitude e altitude) de um lugar na Terra, que podemos visualizar num qualquer receptor de sinais de GPS. Deixo também uma nota, relativamente ao facto de, por exemplo, podermos passar a utilizar um sistema similar ao GPS americano, o GALILEO (União Europeia), ou o sistema russo GLONASS, ou ainda o COMPASS chinês… Por isso mesmo, a expressão “utilizar o GPS” é similar a “barbear com uma Gillette” ou “fazer um furo na parede com um Black & Decker”…

Os seus fundamentos básicos baseiam-se na determinação da distância (calculada através do tempo de propagação dos sinais) entre um ponto (localização do receptor), a outros de referência (os satélites). Sabendo a distância que nos separa de 3 pontos, podemos determinar a nossa posição relativa a esses mesmos 3 pontos através da intersecção de 3 circunferências, cujos raios são as distâncias medidas entre o receptor e os satélites. Na realidade são necessários no mínimo 4 satélites para determinar a nossa posição correctamente, mas deixemos isso para outras considerações.

Talvez seja pouco conhecido da grande parte das pessoas, mas a utilização dum Sistema de Posicionamento Global, como o próprio nome indica, é mais abrangente do que possamos pensar. Aviação geral e comercial, navegação marítima, guardas florestais, trabalhos de prospecção e exploração de recursos naturais e geotecnia, geólogos, geógrafos, arqueólogos, bombeiros, pescadores, geocachers e até na agricultura, especificamente na agricultura de precisão (uma máquina agrícola dotada de receptor GPS armazena dados relativos à produtividade num dispositivo de memória que, tratados por programas específicos, produzem um mapa de produtividade da lavoura, permitindo também optimizar a aplicação de correctivos e fertilizantes), são enormemente beneficiados pela tecnologia do sistema.

Voltando aquilo que nós, pobres humanos, temos no carro: um receptor de sinais GPS. Então, talvez o título deste artigo não esteja correcto, pois aquilo que escrevo é sobre a usabilidade/utilidade dos receptores de sinais GPS em automóveis, mas se pusesse isso no título, acho que ninguém ia ler! Adiante…

No tempo idos de 1980, quando precisávamos de ir a algum sítio desconhecido, tínhamos três hipóteses: ou olhávamos para o mapa de estradas de uma qualquer gasolineira, ou perguntávamos a qualquer desconhecido na beira de uma estrada nacional, ou aquilo que mais frequentemente acontecia, devido à nossa inflexibilidade e mania de sabe-tudo, perdíamo-nos!

Hoje, em pleno século XXI, qualquer um de nós tem um poderoso sistema de recepção de sinais GPS associado a mapeamento digital com edifício em 3D e com uma voz feminina “a 150 metros vire à direita”! Mas o mais engraçado disto tudo é que o utilizamos para ir comprar pão a 200 metros de casa, não vá o padeiro ter mudado de instalações durante a noite, ou para andar na multifacetada rede viária de auto-estradas nacionais onde ou andamos em frente ou em frente andamos. No outro dia, posso jurar que vi o meu vizinho de cima, a ligar o receptor de sinais GPS para sair da garagem do prédio…

Não quero com isto ser radical quanto ao uso dos sistemas de navegação que incorporam a quase totalidade dos automóveis portugueses, quero sim chamar a atenção para o uso real e necessidade premente dum sistema deste tipo. Eles são úteis, eles são user-friendly, eles são precisos, eles já são baratos, eles até são oferecidos se assinarmos uma qualquer revista por 6 meses, mas a sua utilização é nos dias de hoje sobrevalorizada. Pergunto a uma pessoa comum, quantas vezes necessitou realmente de usar um receptor de GPS na sua viatura. Se pensarem bem, muito poucas vezes! Não sou contra os receptores de GPS em automóveis, até pelo contrário, sou contra o uso abusivo dos mesmos…

Na realidade, este avanço tecnológico colocado ao serviço da sociedade civil e usado com a necessidade real é uma mais-valia em tantos aspectos, quantos aqueles que possamos imaginar. Fácil e rapidamente chegamos ao local desejado, utilmente percebemos se aquela rua que pensamos percorrer é de sentido proibido e, até mesmo com alguma imaginação, conseguimos planear o nosso dia de trabalho ou de lazer em função dum par de optimizações de percurso.

Talvez seja defeito de profissão e não querendo desvalorizar esta excelente ferramenta de tecnologia de georreferenciação, eu prefiro o sistema de 1980 onde apesar de nos perdemos muitas vezes, ficávamos a conhecer pequenos recantos como uma qualquer cascata no Gerês que nunca descobriríamos se andássemos ao sabor dos satélites, onde o Ti Manel nunca nos tinha dito que no caminho para a Boidobra tínhamos um restaurante onde provámos o melhor cabrito no forno alguma vez feito, onde nunca descobriríamos se não olhássemos de soslaio para o mapa que a poucos quilómetros de Castelo Branco podemos visitar vilas tão bonitas e históricas como Penha Garcia, Monsanto ou Idanha-a-Velha… Talvez seja defeito mas muitas vezes, e quando não necessário, eu prefiro perder-me amiúde por esses caminhos alternativos de Portugal…

Luís Carrondo: Geógrafo e Consultor de Sistemas de Informação Geográfica e Cartografia Digital; apaixonado por futebol; adora cozinhar e conhecer novos lugares; ateu.
luis.carrondo@inbox.com

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